Acorda Baby boomer, a vida te chama

Não  ligo muito pra datas e não sou de fazer muitos planos. Toda vez que quis planejar demais a vida, o acaso deu um jeito de aparecer e mudar o rumo das coisas. Não sei por que, mas sempre atribuí isso ao fato de ser uma baby boomer.  

Por outro lado, curiosidade nunca me faltou. Então, foi assim que cheguei aos 60 anos. Meio no susto e com a cabeça cheia de perguntas. Se quiser interpretar isso como insegurança, fique à vontade. Entrar para a categoria dos idosos teve um impacto forte em mim. Não dá pra negar. Tão forte que quebrou coisas, o que foi ótimo. Mas isso eu só percebi depois.  

Na linha de chegada o cenário estava bem confuso. De um lado, um monte de gente tentando transformar a velhice na “melhor idade”, com casais grisalhos sorridentes em anúncios de fraldas ou de cola para dentadura. De outro, velhinhos sarados pulando de bungee jump. Velhinhas extravagantes “curtindo a vida adoidado”. Principalmente fora do Brasil.

Aqui, antenados apontando para o preconceito contra a velhice no País. Para o triste descaso das marcas e da mídia em relação aos 60+. Empresas de marketing e pesquisa discorrendo sobre a sensação de invisibilidade trazida à cena por esse público. Para as dificuldades financeiras e entraves ao bem estar, ainda tão comuns na vida dos idosos do Brasil. Esse Brasil que envelheceu antes de se estruturar pra isso e onde chamar alguém de velho é ofensa.

Lá estava eu. Nem tão grisalha, nem tão idosa, sabendo que continuava a mesma de sempre, mas que agora pertencia uma nova e categoria. 

O fato é que a invisibilidade não chega aos 60. Chega bem antes. Aos 60, a gente reaparece como um velhinho corcunda de bengala, estampado no estacionamento de um shopping ou numa placa de trânsito. Fui dormir uma mulher de 59 anos e acordei uma senhora idosa de 60. Não foi uma crise de identidade. Mudaram minha identidade sem pedir a minha permissão. 

Fazer o que. Fui lendo e tentando descobrir o que outras pessoas estavam pensando. Fui mais fundo na psicoterapia, vasculhei minhas vulnerabilidades e aos poucos fui me reencontrando. Quebrei defesas e comecei a construir pontes, que é o único jeito de vencer preconceitos. Eles rondam por todo lugar. Passei a ouvir mais pessoas e também a expor mais minhas verdades.

Se a invisibilidade dos 60 menos é um tanto silenciosa, o velhinho de bengala não tem medo de fazer barulho. É preciso romper esse manto da invisibilidade. Isso não é importante só pra nós. É pra todos que vierem depois.

Seja pelo incentivo dos ageless, que se mantém joviais e interessados pela vida, sem dar a mínima para a idade. Seja por inspiração dos fora da curva, aqueles velhos que simplesmente não aceitam a ideia de envelhecer e mostram que sim, o corpo aguenta. Seja simplesmente por acharem que é a coisa certa a fazer, o fato é que os 60+ aos poucos estão saindo do armário. Estão se valorizando, gostando mais de si.

Esse movimento gerou um certo barulho. O suficiente para que as marcas brasileiras começassem a acordar. E mesmo que tenha demorado, isso é motivo de comemoração. Tá na hora de somar, não diminuir. 

Se você quer pintar o cabelo, pinte. Se quer ostentar a prata no seu telhado, ostente. Quer dançar e cantar na rua? Desafie sua timidez. Quer trabalhar? Procure um problema pra resolver. Arregace as mangas. Estenda a mão. Construa junto.

Se você é um babyboomer, já viveu muitas revoluções. Já passou por poucas e boas. Já sofreu, já chorou, mas também deu boas risadas, não deu? Você faz parte de uma geração que quando era jovem ousou, brigou e exigiu como poucas até então. Com isso, derrubou barreiras, ampliou o diálogo e as trocas entre as pessoas. Mudou o mundo.

Então agora você não vai se encolher, né? Por favor. É hora de ocupar esses espaços e de abrir muitos outros. É hora de continuar a crescer.

*Este texto foi publicado na Coletânea Amo Minha Idade, organizado por Edna Perroti e Elizabete Marin.

Velha pra que mesmo?

A Natura acertou muito em cheio com o comercial do Chronos 60+.  Acendeu uma luz sobre um assunto que é bem polêmico no Brasil. E não só entre o púbico 60+.

Sendo mulher e brasileira, é praticamente impossível não ter ouvido essa pergunta pelo menos uma vez: você já não está muito velha pra isso?

E o pior: a pergunta geralmente aparece em momentos de alegria ou leveza em relação a algum fato associado a pessoas de menos idade.

Talvez a menina de 11 anos tenha brincado de boneca de menos quando era menor. Isso aconteceu comigo. Lembro que passei um tempão preferindo carrinhos e brincadeiras de policia e ladrão.

Em algum momento esqueci de brincar de bonecas.

Mas depois lembrei. E então foi como um intensivo de férias. Eu e minha amiga Madeleine no quintal da casa dela fingindo estar sempre atarefadas com crianças por levar no colégio ou por alimentar, dar banho, colocar para dormir.

Exercitando nosso dom de cuidar.

Eu entendia que as outras meninas da nossa idade não tinham mais interesse nenhum em bonecas, mas para nós não fazia diferença.

Por sorte não apareceu ninguém dizendo que estávamos velhas para brincar com bonecas. Ninguém nos censurou.

Idades limites para fazer coisas são padrões. Mas quem é capaz de determinar esse tipo de coisa a não ser a gente mesmo?

O comercial da Natura nos lembra disso. E de como esses padrões por vezes são desnecessários.

E teve polêmica rolando no Instagram. Algumas mulheres se queixaram quanto ao uso da palavra “velha”.

Francamente.

Ando muito sem paciência com pessoas preocupadas demais com as palavras que os outros falam. Uma disse que velha era uma palavra ofensiva e sugeriu usar “madura”.

Francamente!

Alguém tem que dizer para essas pessoas que o problema não está em usar a palavra “velha”. O problema é o preconceito contra as pessoas velhas. O problema é considerar a palavra “velha” uma ofensa.

O problema está no fazer e no sentir. As palavras só sinalizam. 

(E muitas vezes na direção de quem se sente mal ao ouvir certas palavra e não de quem as diz.)

Já imaginaram como essas pessoas vão se sentir quando envelhecerem? Ou será que quando envelhecerem vão colocar o pijama e se esconder?

Natura, comercial aprovadíssimo pelo SessenTeen!

Veja também esse comercial mais antigo da Natura, com o mesmo tema.

Instagrandma

Sabe a Baddie Winkle? Ela é uma octogenária que bomba soberana com três milhões de seguidores no Instagram. Mesmo pra quem não curte seguir celebridades nas mídias sociais, vale a pena dar uma olhada nos posts simples e engraçados que já conquistaram seguidores como Rihanna e Miley Cyrus. Na verdade são apenas imagens dela, usando os looks mais variados, sempre coloridos e bem humorados.

   

Sabe a revolução das mídias sociais?As mídias sociais deram voz às pessoas comuns. Antes da internet, os chamados emissores eram basicamente os veículos de comunicação.  Era um caminho de mão única. Do emissor para um receptor com pouquíssimas chances de expressar sua opinião. Com as mídias sociais, todo receptor virou um emissor. Sempre que um deles conquista muitos seguidores, passa a funcionar como se fosse um veículo de comunicação e a levar informação para as pessoas. Como as Kardashians da vida, celebridades que se criaram dentro desse ambiente.

Sabe as celebridades da internet?Nesse cenário, Baddie Winkle é um fenômeno intrigante. Kim Kardashian teve um video de pornografia vazado na internet como alavanca principal para a fama. Seguiu o caminho da  amiga Paris Hilton, que teve vários vídeos “roubados”. O escandaloso, assim como o grotesco e o trágico, se espalham com muita facilidade na rede. Já o que bombou a imagem de Winkle foi uma foto dela na porta de casa, sorridente, com uma roupa super colorida e nada ousada.

Sabe a revolução da longevidade?Com 88 anos, a ousadia de Baddie Winkle está mais no sorriso de bem com a vida do que nas roupas coloridas e nos tênis com luzinhas. Nesse vídeo da CNN dá pra ver que a grande maioria dos fãs de Baddie Winkle são jovens. Talvez por não terem referências para escolher o que querem ser quando envelhecerem. Ou por não gostarem das que têm. Num mundo em que as expectativas de vida aumentam dia após dia e que a pirâmide das faixas etárias tende a inverter, talvez seja importante pensar sobre isso.

Sabe a mensagem de Baddie Winkle? Ela irradia a experiência de quem já teve grandes perdas, mas não se entregou para a tristeza e resolveu se reinventar.  Diz que não sabe o que deveria ou o que se espera que ela sinta em função de sua idade: ela simplesmente não se sente velha.

Quer ser uma referência para a sua geração, para que as pessoas façam o que sempre quiseram fazer e sejam o que sempre quiseram ser. E não desistam, não se entreguem para a desesperança, como um dia ela quase se entregou. O mais interessante é que assim ela virou uma pessoa querida, uma referência também para os muito mais jovens.

(Baddie Winkle participou da gravação da música Instagrandma, do grupo Nod one’s Head. Veja um pedacinho da música nesse link que ela colocou no seu perfil do Instagram.)

Madonna, desde quando você é santinha?

De que Material é feita essa Girl?

Essa Madonna, sempre aprontando das suas. Aquele discurso pelo prêmio de Mulher do Ano da Billboard não me sai da cabeça.

Vibrei muito da primeira vez que ouvi. Madonna, a arrasa-quarteirão, admitindo dificuldades. A super mega blaster Madonna se queixando do machismo. Esse, que tanto incomoda reles mortais.

A bilionária Madonna posando de garotinha que se queixa para os pais dos irmãos descolados (Prince e David Bowie). Para eles não existem regras. Para ela, droga, uma imensa lista de “do not”.

Nunca imaginei a vida do David Bowie como um mar de rosas. Muito menos a do Prince. Ser celebridade gay, bi-sexual, ou apenas andrógina, não devia ser exatamente uma zona de conforto nos anos 70/80.

Nunca imaginei a Madonna preocupada com algo que não pudesse fazer.

Madonna me parecia bem mais tranquila que o Prince, por exemplo. Lembro que quando ele mudou seu nome para aquele símbolo impronunciável, achei que era um sinal de perda total da identidade.

E quer identidade mais forte que a da Madonna?

Confesso que nunca fui muito fã de nenhum dos dois. Não que justificasse querer entender suas trajetórias de vida.

Mas cogitar se David Bowie seria tão bom se sofresse com as mesmas regras e imposições que ela, isso doeu no meu ouvido. Arranhou a agulha no vinil.

(Corta para as entrelinhas do discurso da Madonna)

“Olha, gente, se eu não fiz mais ou melhores coisas é porque existem muitas regras para as meninas. Para os meninos, não. Se não estou tocando nas rádios, é porque não segui as regras. Mulheres não podem fazer isso. Ah, e também porque envelheci. Mulheres não podem fazer isso também.”

Algo não fecha.

Quando a erótika Madonna bateu boca com Camille Paglia, ela rompeu com o feminismo. Ignorou, como algo que não tivesse nada a ver com ela. Isso faz todo o sentido.

Agora ela revela uma grande revolta com todas as injustiças tipicamente machistas que sofreu. Isso não faz muito sentido.

Será que essa Madonna cansou de ser aquela Madonna que não liga para regras? Que não liga muito pra nada, aliás, a não ser ficar rica e poderosa?

Se for assim, reclamar das injustiças desse mundo é como botar a culpa nos outros, por coisas que ela mesma não está com vontade de fazer.

Aí até dá pra entender porque o discurso soa tão falso.

Viva la revolución

Você já ouviu falar  na “revolução da longevidade”? E no “envelhecimento ativo” ?

Eu ignorava tudo isso até ler uma entrevista com Alexandre Kalache na Zero Hora,  “O Brasileiro é preconceituoso com a velhice”, que foi o que deu início à criação deste site.

Nessa entrevista, também publicada no ClicRBS, o presidente do Centro Internacional de Longevidade do Brasil explica que a quantidade de anos extra que foram acrescentados à nossa expectativa é uma revolução.
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Surgiu um cabelo branco na moda

E eis que um comercial de moda me deixa de boca aberta, o que há muito tempo não acontecia.

Só eu  achei linda e charmosa a modelo de cabelos grisalhos que aparece no filme de lançamento da coleção outono/inverno Renner?

O elenco do comercial é só garotada e eles não param quietos. Vão chegando agitados, como se estivessem atrasados, procurando alguma coisa ou alguém, observando quem chega, cuidando se vem alguém atrás. Uma mistura de desfile e interpretação que valoriza a roupa. Mas ela, não. Ela aparece lá em cima, na cobertura, com um ar de quem nunca se afoba. De quem chegou antes, o que não deixa de ser uma boa metáfora.

Emoldurada pelo cabelo grisalho, uma cara de quem tá muito bem consigo mesma.

Uma das raras vezes em que uma senhora de cabelo branco não é a vovozinha em um filme publicitário brasileiro. Nada contra vovózinhas engraçadas. Bem pelo contrário. Mas esta é uma mulher, apenas. Que se preocupa, sim, em acompanhar a moda. Que gosta de se sentir bonita.

E ela não destoa em um ambiente onde só aparecem jovens. Pelo contrário, surpreende com sua beleza única e o olhar mais penetrante de todos.

Enquanto tanta marca brasileira de moda perde oportunidade de se identificar com essa faixa etária, uma das poucas que tende só a crescer numericamente nos próximos anos, por medo de parecer “velha”, a Renner chega na contramão, fazendo barulho e reverenciando um público que andava totalmente esquecido.

Aprovadaço pelo SesenTeen.

 

 

SessenTeen, que história é essa?

A sociedade na qual a gente vive cria bastante expectativa a respeito da terceira idade.

Não sei se é por isso, mas por mais “easy going” que você tente ser na vida, sempre surge aquela inquietação. Como vai ser? Afinal, separaram a população entre os que têm menos e os que têm mais de 60 anos. Você vai passar a fazer parte de um grupo e ganhar um rótulo. Mas em você, algo vai mudar de fato?

Talvez a grande inversão da expectativa seja esta. De um dia para o outro, vai ter uma vaga garantida pra você no estacionamento do shopping, desde que esteja disposto a colocar seu carro em cima de um retângulo onde está escrito IDOSO. Você vai contar com o benefício de pagar meia entrada no cinema e em shows. E o que mais, mesmo? Era isso?

Fora essas convenções, que geram pequenas mudanças na vida, da sua pele pra dentro, tudo igual. Envelhecer é uma coisa que todos nós fazemos, sem parar, desde o dia em que nascemos. O que talvez tenha mudado, e radicalmente, é o número de pessoas que chega aos sessenta se sentindo com apenas um ano a mais e com expectativa de viver ainda algumas décadas. Isso sim é novidade.

Chegar lá sabendo que ainda tem um bom tempo pela frente, mais do que qualquer rótulo, é o que faz a gente parar pra pensar. Como queremos viver esse tempo, fazendo o que, com que propósito?

O SessenTeen foi criado para ser um lugar de reflexão, onde eu vou compartilhar as descobertas que tenho feito ultimamente  sobre tudo isso. Uma delas é o trabalho de Alexandre Kalache. No ano passado eu li uma entrevista com ele na Zero Hora, que foi uma das fontes de inspiração para a criação deste site. Nessa entrevista, o doutor em Saúde Pública pela Universidade de Oxford, Presidente do Centro Internacional de Longevidade do Brasil e diretor por 14 anos do Programa Global de Envelhecimento e Saúde da OMS, Organização Mundial da Saúde, compara “Quando a gente vivia até os 50, 60 anos, num passado recente, a vida era uma corrida de cem metros. Hoje a vida é um maratona”. Não é uma boa metáfora?

Curiosamente, aqui no Brasil, um país de dimensões gigantescas no que se refere à falência do sistema previdenciário, é considerado “normal”, nessa época da vida, a pessoa entrar em férias. E nunca mais sair. Não tá mais do que na hora de transformar isso? Como toda boa mudança, essa só vai  acontecer, se a gente começar a pensar sobre o assunto. Simbora?